Resenha: O Cortiço, de Aluísio Azevedo
O Cortiço, de Aluísio Azevedo, publicado em 1890, tem nota 3,8 de 5 no Skoob, com base em mais de 64 mil avaliações de leitores. O número por si só já diz algo. É um clássico do século XIX que continua sendo lido, discutido e cobrado em vestibular décadas depois de escrito. Este livro é considerado o marco máximo do Naturalismo no Brasil. O movimento tratava personagens quase como objetos de estudo, movidos por instinto, raça e meio social mais do que por livre-arbítrio.
Ficha técnica
- Título: O Cortiço
- Autor: Aluísio Azevedo
- Ano de publicação original: 1890
- País: Brasil
- Gênero: Romance
- Movimento literário: Naturalismo
- Narrador: onisciente, em terceira pessoa
- Onde se passa: Rio de Janeiro, final do século XIX
- Nota no Skoob: 3,8 de 5 (mais de 64 mil avaliações)
Sinopse sem spoilers
A história acompanha João Romão, um comerciante português dono de uma venda, de uma pedreira e do cortiço que dá nome ao livro. Ele é ambicioso, econômico ao extremo e disposto a quase tudo para enriquecer e subir de vida. Ao seu redor, cresce uma comunidade inteira de moradores pobres: lavadeiras, pedreiros, imigrantes, famílias inteiras dividindo cômodos apertados. Do outro lado da rua fica a casa de Miranda, comerciante já estabelecido. Entre os dois existe uma rivalidade de vizinhança que também é disputa de classe.
Aluísio Azevedo não constrói um enredo com um único fio condutor. Ele monta um mosaico de vidas que se cruzam dentro do cortiço, cada uma reagindo às pressões do ambiente à sua maneira. Alguns personagens tentam escapar da pobreza, outros cedem a impulsos que o narrador trata como quase biológicos. O leitor acompanha ascensões, quedas, paixões e traições sem que o livro entregue uma moral fácil no caminho.
Sobre o autor
Aluísio Azevedo nasceu em São Luís, no Maranhão, em 1857, e morreu em Buenos Aires em 1913, enquanto trabalhava como diplomata brasileiro. Antes de se dedicar à escrita, atuou como caricaturista e jornalista. Publicou O Mulato em 1881, considerado o livro que inaugurou o Naturalismo no Brasil. Chegou a O Cortiço quase dez anos depois, já com técnica mais madura. Foi um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, ocupando a cadeira de número 4 entre 1897 e 1913. Sua obra recebeu forte influência do francês Émile Zola e do português Eça de Queirós, ambos referências centrais do Naturalismo europeu.
Naturalismo em ação: os temas centrais de O Cortiço
O cortiço como personagem coletivo
O crítico Alfredo Bosi observou que Aluísio Azevedo abriu mão de um enredo centrado em poucas pessoas. Apostou em uma sequência de cenas coletivas, o que torna o próprio cortiço “a personagem mais convincente” do livro. Faz sentido: o edifício cresce, se transforma, ganha reputação própria ao longo da narrativa. Ele não é só cenário, é força ativa que empurra os moradores para determinados destinos.
Determinismo: raça, meio e instinto
O Naturalismo parte de uma ideia central: o ser humano é resultado do meio em que vive, da herança genética e do momento histórico. É quase tratado como um animal estudado em laboratório. Em O Cortiço isso aparece na forma como o narrador descreve impulsos sexuais e comportamentos como consequência direta do ambiente insalubre e da miséria. Um trecho do livro resume bem esse mecanismo. Explica a atração entre Jerônimo e Rita Baiana como resultado de “imposições mesológicas”, termo que remete direto ao vocabulário científico da época.
Ascensão social e degradação moral
João Romão ilustra o lado mais cruel do capitalismo em formação no Brasil pós-Império: cada centavo economizado vira propriedade, cada relação vira ferramenta de ascensão. Sua trajetória levanta uma pergunta que o livro nunca responde de forma confortável. Até onde vale a pena progredir financeiramente se isso custa a lealdade e a decência? A resposta, se existe, fica a cargo de quem lê.
Sexualidade, preconceito e classe
Azevedo também usa o cortiço para discutir tabus da sociedade carioca do século XIX. Pombinha, jovem criada para ser “bem casada”, tem sua trajetória alterada pela influência de Léonie. Albino é retratado com traços associados à homossexualidade, algo raro em romances brasileiros daquele período. Essas escolhas geraram debate na época e ainda geram leitura crítica hoje, especialmente sobre como o determinismo naturalista tratava identidade e desejo como desvio patológico.
Personagens principais
| Personagem | Quem é | Papel na trama |
|---|---|---|
| João Romão | Comerciante português, dono da venda, da pedreira e do cortiço | Motor da ambição e da ascensão social a qualquer custo |
| Bertoleza | Mulher negra que ajuda João Romão a construir seu patrimônio | Representa a exploração e a dívida moral por trás do sucesso dele |
| Jerônimo | Imigrante português, operário da pedreira | Sofre transformação pessoal ao se apaixonar por Rita Baiana |
| Piedade | Esposa de Jerônimo | Vive o lado doméstico e sofrido do triângulo amoroso |
| Rita Baiana | Moradora do cortiço, associada à sensualidade e à liberdade | Catalisa a mudança de comportamento de Jerônimo |
| Pombinha | Jovem educada, filha de dona Isabel | Mostra como as expectativas sociais podem ser rompidas |
| Miranda | Comerciante português estabelecido, vizinho de João Romão | Representa a burguesia já consolidada e seus próprios dilemas |
| Zulmira | Filha de Miranda | Ligada ao desfecho da ascensão social de João Romão |
Frases marcantes
“Confio nos meus dentes, e esses mesmo me mordem a língua.”
“…e Rita preferiu no europeu o macho de raça superior. O cavouqueiro, pelo seu lado, cedendo às imposições mesológicas, enfarava a esposa, sua congênere, e queria a mulata, porque a mulata era o prazer, era a volúpia…”
“Já lá se não admitia assim qualquer pé-rapado: para entrar era preciso carta de fiança e uma recomendação especial. (…) O cortiço aristocratizava-se.”
Para quem é indicado
- Quem está estudando Naturalismo para vestibular ou Enem e quer ir além do resumo escolar.
- Leitores de clássicos brasileiros que já passaram por Machado de Assis e querem comparar estilos de época.
- Quem se interessa por literatura social, com foco em pobreza urbana e desigualdade no Brasil do século XIX.
- Quem gosta de narrativas corais, com vários personagens dividindo o protagonismo em vez de um único herói central.
Por outro lado, quem busca um romance de ritmo ágil ou final reconfortante pode achar o livro pesado. A linguagem é datada em alguns trechos, e o narrador não poupa o leitor de cenas de violência, exploração e preconceito. Isso é proposital: faz parte do projeto naturalista de mostrar a vida sem filtro.
Nossa avaliação final
O Cortiço envelheceu bem onde importa. A crítica à desigualdade social continua atual. Já a construção do cortiço como organismo vivo é um exercício técnico que poucos romances brasileiros do período conseguiram igualar. A nota do Skoob reflete essa divisão comum entre leitores de clássicos. No total, 25% dão cinco estrelas, 34% dão quatro estrelas, e uma fatia menor reclama do ritmo ou da linguagem mais formal do século XIX. Aqui no Depois da Capa, avaliamos o livro com 4,5 de 5. Ele perde meio ponto pela exigência de repertório histórico para aproveitar certas referências. Ganha, em troca, pela coragem temática e pela construção coletiva de personagens, algo raro até hoje.
O Cortiço faz parte do mesmo momento da literatura brasileira que produziu Dom Casmurro (Machado de Assis) e Memórias Póstumas de Brás Cubas (Machado de Assis). A diferença é o caminho: Machado seguiu algo mais irônico e psicológico, não naturalista. Também dialoga, décadas depois, com a crítica social direta de Vidas Secas (Graciliano Ramos), outro retrato duro da desigualdade brasileira. Se você está organizando um roteiro de leitura de clássicos, o livro também está na nossa lista 10 Clássicos Brasileiros Pra Começar a Ler Agora.
Perguntas frequentes sobre O Cortiço
O Cortiço é baseado em fatos reais?
Os personagens são fictícios, mas o cenário reflete cortiços reais do Rio de Janeiro do final do século XIX. Eram moradias coletivas comuns entre a população pobre da época.
Qual a diferença entre Naturalismo e Realismo neste livro?
O Realismo já criticava a sociedade e a hipocrisia burguesa. O Naturalismo vai além disso: trata o comportamento humano como resultado quase mecânico de raça, meio e instinto, numa linguagem próxima da ciência da época.
Por que Bertoleza é importante na trama?
Bertoleza expõe o custo humano por trás da ascensão de João Romão. Sua história funciona como contraponto moral a todo o progresso financeiro dele ao longo do romance.
O Cortiço é difícil de ler hoje em dia?
O vocabulário é mais formal que o de romances contemporâneos, mas a estrutura é direta. Edições anotadas ou comentadas ajudam bastante com termos e referências do século XIX.
Você já leu O Cortiço na escola ou só agora, por conta própria? E qual desses moradores do cortiço mexeu mais com você: João Romão, Bertoleza ou Rita Baiana? Conta aqui nos comentários.



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