A Hora da Estrela, de Clarice Lispector: a resenha completa

Publicado em outubro de 1977, poucas semanas antes de Clarice Lispector morrer, “A Hora da Estrela” acompanha os últimos meses de vida de Macabéa. Ela é uma datilógrafa alagoana de dezenove anos, perdida no Rio de Janeiro. É o último romance que a autora viu impresso. Talvez por isso carregue um peso que nenhum outro livro dela tem: a sensação de estar lendo uma despedida disfarçada de ficção.

Não é um livro fácil de recomendar sem contexto. Tem cento e vinte páginas curtas, mas exige leitura devagar, quase soletrada. E tem um narrador, Rodrigo S.M., que interrompe a história da própria personagem o tempo todo para falar sobre o ato de escrever. Antes de entrar nesse labirinto, vale passar pela ficha técnica.

Ficha técnica

  • Título: A Hora da Estrela
  • Autora: Clarice Lispector
  • Ano de publicação original: 1977, pela Editora José Olympio
  • Gênero: romance, ficção introspectiva
  • Número de páginas: cerca de 120, a depender da edição
  • Narrador: Rodrigo S.M. (narrador fictício criado por Clarice)
  • Nota no Skoob: 4,2 de 5, com mais de 100 mil avaliações

Sinopse sem spoilers

Macabéa é órfã, criada por uma tia rígida, e chega ao Rio vinda de Alagoas para trabalhar como datilógrafa. Erra na digitação com frequência, não entende referências culturais que os colegas de escritório dão como óbvias e vive numa pensão dividida com outras moças. Come cachorro-quente e ouve a Rádio Relógio, a única emissora que capta no rádio velho. Namora Olímpico de Jesus, um rapaz que também veio do interior e sonha em subir na vida.

Até aqui, parece uma sinopse comum. O que muda tudo é a forma. Quem conta essa história é Rodrigo S.M., um narrador que se declara incomodado com a própria tarefa. Ele hesita, se contradiz, pergunta ao leitor se tem o direito de escrever sobre uma vida tão pobre de acontecimentos. Ele demora páginas inteiras para começar a narrativa e, quando começa, segue interrompendo a si mesmo. Clarice não revela o desfecho de Macabéa neste resumo, e esta resenha também não vai revelar. Mas adianta que o título do livro só faz sentido pra quem chega ao fim.

Sobre a autora

Clarice Lispector nasceu na Ucrânia em 1920 e chegou ao Brasil ainda bebê, com a família fugindo de perseguições na região. Virou uma das vozes mais originais da literatura brasileira do século vinte, com uma prosa que investiga estados internos mais do que enredos. “A Hora da Estrela” foi publicado poucas semanas antes de sua morte, em dezembro de 1977, vítima de um câncer. Ela nunca chegou a ver a repercussão que o livro teria depois, incluindo a adaptação para o cinema dirigida por Suzana Amaral em 1985. Quem quiser conhecer a trajetória completa da autora encontra mais detalhes no perfil dedicado a Clarice Lispector, publicado aqui no blog nesta mesma semana.

Análise: os temas centrais

A invisibilidade como condição

Macabéa não é pobre só de dinheiro. Ela é pobre de repertório, de vocabulário, de referências que lhe permitam entender o próprio lugar no mundo. Clarice constrói essa invisibilidade sem pena e sem discurso social explícito. A personagem simplesmente existe à margem, ignorada até por quem convive com ela. E o livro deixa claro que essa invisibilidade tem endereço: vem do sertão nordestino, atravessa a migração e desemboca numa cidade grande sem lugar reservado pra gente como ela.

O narrador que não se esconde

Rodrigo S.M. é homem, tem formação, tem vocabulário, e insiste em dizer que escreve sobre Macabéa porque precisa, não porque quer. Essa tensão entre quem narra e quem é narrada é o motor do livro. Ele se sente culpado por ter privilégios que ela não tem. Ainda assim, não consegue deixar de exercer poder sobre a história dela, decidindo o que contar e como contar. É uma reflexão sobre autoria que antecipa debates que a crítica literária só formalizaria décadas depois.

Escrever como ofício doloroso

Boa parte do livro é sobre o próprio ato de escrever. Rodrigo S.M. compara a escrita a quebrar pedra. Diz que não é fácil, que dói, que às vezes soltam faíscas no meio do trabalho duro. Clarice usa esse narrador pra falar da própria angústia diante da página em branco. A mistura de ficção e reflexão é tão fina que o leitor esquece, por momentos, que está lendo um romance e não um diário de escritora.

“Não, não é fácil escrever. É duro como quebrar rochas. Mas voam faíscas…”

“Escrevo por não ter nada a fazer no mundo: sobrei e não há lugar para mim na terra dos homens.”

Tabela de personagens

Personagem Papel na história O que representa
Macabéa Protagonista, datilógrafa alagoana de dezenove anos A invisibilidade social e a inocência diante de um mundo que não a enxerga
Rodrigo S.M. Narrador fictício criado por Clarice para contar a história A angústia da escrita e o desconforto de quem narra a dor alheia de fora
Olímpico de Jesus Namorado de Macabéa, também migrante nordestino A ambição que despreza quem fica pra trás no caminho da ascensão social

Frases marcantes

Algumas passagens resumem o tom do livro melhor do que qualquer resumo. Ficam aqui três delas, retiradas do texto original.

“Quando acordava não sabia mais quem era. Só depois é que pensava com satisfação: sou datilógrafa e virgem, e gosto de coca-cola.”

“Ela falava coisas grandes mas ela prestava atenção nas coisas insignificantes.”

“Esta história acontece em estado de emergência e de calamidade pública. Trata-se de livro inacabado porque lhe falta resposta.”

Para quem é indicado

Vale mais pra quem já tem alguma familiaridade com prosa densa e não se incomoda com narrativa fragmentada. Se a experiência de leitura que você busca é enredo com começo, meio e fim tradicionais, esse não é o ponto de partida ideal na obra de Clarice. Já quem leu a Resenha de Dom Casmurro publicada aqui, e gostou de acompanhar um narrador que interfere na própria história, vai reconhecer um parentesco de método. Os dois livros são radicalmente diferentes em tom, mas compartilham essa desconfiança do narrador em relação a si mesmo. É leitura também pra quem já passou pela Resenha de Bom Dia Inverno neste blog. Quem busca continuar explorando registros introspectivos da autora encontra aqui um tom bem mais seco e urgente do que aquele.

Nossa avaliação final

“A Hora da Estrela” não é um livro que se lê buscando conforto. É curto no número de páginas e longo no tempo que pede de atenção. A construção do narrador Rodrigo S.M. é o que sustenta o livro inteiro. Ela transforma o que poderia ser só um retrato de pobreza numa reflexão sobre quem tem direito de contar a história de quem. Fica na nossa lista de leituras essenciais da literatura brasileira, com nota 5 de 5. Clarice teve a coragem de terminar uma carreira inteira com um livro desconfortável e necessário.

Perguntas frequentes

A Hora da Estrela é difícil de ler?

É curto, mas não é rápido. O texto pede leitura atenta por causa das interrupções constantes do narrador e da linguagem que mistura reflexão filosófica com a vida simples de Macabéa. Não é o primeiro livro que recomendaríamos pra quem nunca leu Clarice Lispector.

De que trata o final de A Hora da Estrela?

Sem spoilers: o desfecho envolve um encontro entre Macabéa e uma cartomante, Madama Carlota, que muda o rumo dos últimos capítulos. O título do livro só ganha sentido completo nessas páginas finais, e por isso preferimos não descrever o que acontece.

Quantas páginas tem A Hora da Estrela?

Em torno de 120 páginas, dependendo da edição. É um dos romances mais curtos de Clarice Lispector, mas também um dos mais comentados pela crítica literária.

A Hora da Estrela tem adaptação para o cinema?

Sim. Em 1985, Suzana Amaral dirigiu a adaptação, com Marcélia Cartaxo no papel de Macabéa. O filme é considerado uma das grandes adaptações da literatura brasileira para as telas e ajudou a levar o livro pra um público mais amplo.

E você, já leu “A Hora da Estrela”? Conta aqui nos comentários que passagem ficou mais marcada depois da leitura.

Tenho 48 anos e sou apaixonado por literatura desde muito cedo. Os livros sempre ocuparam um espaço especial na minha vida, e boa parte do meu tempo livre é dedicada à leitura de romances a biografias, passando por ciência e desenvolvimento pessoal, meus interesses de leitura são bastante variados. Sou o criador do Depois da Capa, um blog onde compartilho resenhas sinceras e sem spoilers desnecessários sobre livros dos mais diversos gêneros. Acredito que uma boa história não termina na última página: ela continua depois da capa, nas conversas, nas reflexões e nas escolhas de leitura que vêm em seguida. É essa ideia que guia meu trabalho ajudar outras pessoas a escolherem a próxima leitura com mais confiança. Além do blog, também levo o Depois da Capa para o YouTube, Facebook e Instagram, onde interajo com a comunidade de leitores, recebo sugestões de livros e compartilho um pouco mais do universo literário que me move.

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