O que é Realismo na literatura brasileira? Entenda de forma simples

O Realismo é o movimento literário que abandonou o exagero romântico e passou a mostrar a vida como ela é, com personagens falhos e boa dose de crítica social. No Brasil, porém, essa mudança tem data marcada. Tudo começou oficialmente em 1881, quando Machado de Assis publicou Memórias Póstumas de Brás Cubas. O livro trouxe um narrador defunto, irônico e pouco confiável contando a própria vida e, com isso, bagunçou de vez as regras da nossa literatura.

Antes de Machado, os romances românticos preferiam heróis nobres e finais emocionantes. Depois dele, porém, a literatura brasileira ganhou outro tom: mais seco, mais observador, menos interessado em agradar o leitor. Este texto, a seguir, explica o que muda de fato no Realismo. Além disso, mostra por que ele surgiu naquele momento e como diferenciá-lo do Romantismo e do Naturalismo sem complicação.

Características do Realismo

O Realismo tem alguns traços que se repetem de obra para obra, mesmo quando os autores são bem diferentes entre si. Por isso, reconhecer esses traços ajuda a identificar um texto realista numa prova ou numa leitura qualquer.

  • Narrador crítico e irônico: em vez de guiar o leitor com carinho, o narrador realista questiona e debocha. Às vezes, aliás, engana de propósito, como faz Brás Cubas ao contar a própria história depois de morto.
  • Personagens complexos: ninguém é puramente bom ou puramente mau. Ou seja, as figuras têm interesses, vaidades, ciúmes e contradições, parecidas com gente de verdade.
  • Crítica social: o Realismo mira o casamento por conveniência e a hipocrisia da elite. Também expõe o adultério escondido atrás das boas maneiras e as desigualdades da época.
  • Fim da idealização romântica: acabou o amor perfeito, o herói impecável e a natureza como refúgio. Em vez disso, ganha espaço o comportamento humano tal como ele é, mesquinharias inclusas.

Contexto histórico

O Realismo nasce no Brasil do final do século 19, um período de transformações rápidas. Machado publicou Memórias Póstumas de Brás Cubas em 1881, ainda sob o Segundo Reinado. Poucos anos depois, em 1888, veio a Lei Áurea, que aboliu a escravidão. Logo em seguida, em 1889, o Império caiu e deu lugar à República.

Essas mudanças abalaram a estrutura social baseada no latifúndio, na monocultura do café e no trabalho escravo. Ao mesmo tempo, a classe urbana crescia e a mentalidade burguesa se firmava nas grandes cidades. Crescia também a fé no progresso e na ciência entre os intelectuais. Não é coincidência, portanto, que a literatura tenha trocado o sonho romântico pela observação mais dura da realidade: o país precisava se olhar de frente.

Diferença entre Realismo e Romantismo

A forma mais simples de entender o Realismo é compará-lo com o movimento que veio antes dele. O Romantismo, forte no Brasil entre 1836 e cerca de 1881, valorizava a emoção, o herói idealizado e os finais tocantes. Já o Realismo prefere a análise fria, o personagem imperfeito e os finais que incomodam.

  • Visão do amor: no Romantismo, é puro e salva o herói; no Realismo, aparece misturado a interesse, traição e cálculo.
  • Herói: romântico é corajoso e idealizado; realista é ambíguo, cheio de defeitos reconhecíveis.
  • Narrador: romântico costuma ser envolvido e sentimental; realista é distanciado, analítico, muitas vezes irônico.
  • Objetivo: o Romantismo busca emocionar; o Realismo busca expor, questionar e, muitas vezes, incomodar.

Em resumo: o Romantismo mostra a vida como o leitor gostaria que ela fosse. Já o Realismo mostra a vida como ela costuma ser, imperfeições incluídas.

Principais autores e obras

Machado de Assis é o nome que abre e domina o Realismo brasileiro. Depois de Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), ele publicou Dom Casmurro (1899). Esse é, talvez, o romance que mais gera discussão na nossa literatura, por causa da dúvida sobre a traição de Capitu. Por isso, quem quiser se aprofundar encontra duas resenhas aqui no blog: a Resenha de Memórias Póstumas de Brás Cubas (Machado de Assis) e a Resenha de Dom Casmurro (Machado de Assis).

Vale explicar uma confusão comum. Realismo e Naturalismo caminharam quase juntos no Brasil, como movimentos irmãos surgidos na mesma época. Porém, o Naturalismo radicaliza a proposta realista e soma influência das ciências naturais e da teoria da evolução. Costuma retratar personagens que o instinto, a hereditariedade e o ambiente dominam. O Cortiço, de Aluísio Azevedo, que saiu em 1890, é o exemplo que mais aparece quando o assunto é essa vertente no Brasil. Aliás, a obra acabou de ganhar uma resenha nova aqui no blog: a Resenha de O Cortiço (Aluísio Azevedo).

Outro caso que gera dúvida é Vidas Secas, de Graciliano Ramos, que saiu em 1938. Tecnicamente, o livro pertence ao Modernismo, na fase que os críticos chamam de romance de 30, com forte presença do regionalismo nordestino. Ainda assim, carrega herança clara do Realismo e do Naturalismo: a crítica social é dura e a linguagem é enxuta. A miséria e a seca moldam os personagens, incluindo o cachorro Baleia. Por isso, vale conferir a Resenha de Vidas Secas (Graciliano Ramos), que também está aqui no blog, pra entender melhor essa relação com a tradição realista.

Perguntas frequentes sobre Realismo

Quando começou o Realismo no Brasil?

Começou oficialmente em 1881, com a publicação de Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis. Depois disso, o período de maior força do movimento vai até cerca de 1890, quando o Naturalismo e o Parnasianismo ganham espaço.

Qual a diferença entre Realismo e Naturalismo?

O Realismo foca no comportamento social e psicológico dos personagens, com narrador irônico e crítico. Já o Naturalismo vai além disso: explica esse comportamento por instinto, hereditariedade e meio, sob forte influência das ciências naturais.

Vidas Secas é Realismo ou Modernismo?

Formalmente é Modernismo, dentro da fase conhecida como romance de 30. Mas o livro herda recursos do Realismo e do Naturalismo, como a crítica social direta e o foco nas condições materiais de vida dos personagens.

Por que Machado de Assis é considerado o marco do Realismo brasileiro?

Porque Memórias Póstumas de Brás Cubas rompeu com as convenções românticas ao usar um narrador morto, irônico e pouco confiável. Afinal, nenhum romance brasileiro anterior havia experimentado essa liberdade narrativa e essa dose de crítica social.

Depois de ver as diferenças entre Realismo, Naturalismo e Romantismo, qual desses três te atrai mais para a próxima leitura? Conta aqui nos comentários.

Tenho 48 anos e sou apaixonado por literatura desde muito cedo. Os livros sempre ocuparam um espaço especial na minha vida, e boa parte do meu tempo livre é dedicada à leitura de romances a biografias, passando por ciência e desenvolvimento pessoal, meus interesses de leitura são bastante variados. Sou o criador do Depois da Capa, um blog onde compartilho resenhas sinceras e sem spoilers desnecessários sobre livros dos mais diversos gêneros. Acredito que uma boa história não termina na última página: ela continua depois da capa, nas conversas, nas reflexões e nas escolhas de leitura que vêm em seguida. É essa ideia que guia meu trabalho ajudar outras pessoas a escolherem a próxima leitura com mais confiança. Além do blog, também levo o Depois da Capa para o YouTube, Facebook e Instagram, onde interajo com a comunidade de leitores, recebo sugestões de livros e compartilho um pouco mais do universo literário que me move.

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